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Como a restrição do turismo tornou Santa Catarina referência mundial em conservação — um modelo que agora corre risco

  • Atré Comunicação
  • 30 de jul.
  • 4 min de leitura

Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca é a unidade de conservação mais visitada do Brasil e a primeira Área Patrimônio de Baleias da América Latina


A unidade de conservação mais visitada do Brasil não fica na Amazônia, nem em nenhum dos grandes parques nacionais do país. Fica no litoral de Santa Catarina: mais de nove milhões de pessoas passaram pela Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca em 2025, segundo dados do ICMBio. 


O motivo por trás desse número é, à primeira vista, contraintuitivo. Na APA, criada há 26 anos para cuidar do principal berçário da espécie ameaçada de extinção,  a observação embarcada de baleias é proibida desde 2013. Enquanto a maior parte dos destinos de whale watching no mundo compete para aproximar turistas dos animais, o litoral catarinense fez o oposto, e transformou a restrição em seu maior ativo turístico.


A proteção do território que hoje soma 156 mil hectares e 130 km de costa, entre Florianópolis e Balneário Rincão, ocorreu em nome de uma espécie que, décadas atrás, havia praticamente desaparecido da costa brasileira. Entre 1973 e meados dos anos 1980, não existe um único registro de baleia-franca-austral (Eubalaena australis) no litoral do país, resultado de séculos de caça voltada à extração de óleo para iluminação. 


Hoje, a população monitorada pelo Instituto Australis soma cerca de 800 indivíduos, crescendo a uma taxa de 4,8% ao ano em uma série histórica de 20 anos. Em 2026, o primeiro avistamento da temporada ocorreu em maio — um dos registros mais precoces já feitos —, sinal de que a curva de recuperação segue firme.

Sem barcos se aproximando das enseadas onde as fêmeas dão à luz, a experiência de observação foi reconstruída a partir de praias, dunas, trilhas e mirantes. A baleia continua sendo a protagonista, mas o produto turístico passou a ser o território.


“A experiência de observação tende a aumentar o interesse dos visitantes pela espécie. Eles procuram nosso centro para saber mais sobre o trabalho de conservação, e isso fortalece a percepção da importância de proteger esse patrimônio natural, um importante instrumento de proteção da baleia-franca”, afirma Karina Groch, bióloga e diretora de Pesquisa do ProFRANCA/Instituto Australis, Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca.

Esse modelo levou o berçário de Santa Catarina a se tornar, em dezembro de 2025, a primeira Área Patrimônio de Baleias (Whale Heritage Area) do Brasil e a segunda da América Latina — reconhecimento concedido pela World Cetacean Alliance a destinos que equilibram conservação, ciência, cultura comunitária e turismo responsável. A região se junta a outros 11 destinos no mundo, entre eles Madeira (Portugal) e Hervey Bay (Austrália).


Um diferencial que vai além das baleias

Na mesma faixa de litoral, outro fenômeno reforça o caráter único da região: pescadores artesanais e botos-nariz-de-garrafa cooperam na captura da tainha, com os botos sinalizando a localização dos cardumes para as redes. O comportamento já foi certificado como patrimônio cultural imaterial, e Santa Catarina é apenas o segundo lugar do mundo onde essa interação foi documentada.


A cadeia de capacitação profissional acompanha esse padrão. Um levantamento do Instituto Australis com 27 guias e condutores da APA, publicado na revista Turismo e Sociedade (UFPR), mostra que boa parte desses profissionais não se define apenas como condutor turístico: eles se veem como educadores ambientais e mediadores entre a ciência e o visitante. 


Na Canyons do Brasil, empresa de turismo que trabalha com observação de baleias no sul de Santa Catarina, os roteiros incluem capacitação contínua junto ao Instituto Australis e visita ao Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca, em Imbituba, onde fica o único esqueleto completo de uma baleia-franca adulta exposto no litoral brasileiro.

“Para minimizar o impacto, trabalhamos com grupos reduzidos de até 8 a 10 pessoas, sempre utilizando as trilhas, com atenção aos impactos sonoros. Anteriormente, de junho a outubro era o melhor período de observação; este ano, em abril, as baleias já começaram a chegar”, afirma Guilherme Mainieri, proprietário da empresa.

Por ocorrer  no inverno, a temporada redesenha a economia de municípios que historicamente dependiam quase só do verão. Hospedagem, gastronomia, transporte e comércio local passam a girar também entre junho e novembro, uma característica que aproxima o modelo catarinense dos princípios do turismo regenerativo. Mais do que reduzir impacto, o objetivo é gerar legado positivo para o território.


Um modelo sob ameaça

É justamente esse território que está em disputa. Um Projeto de Lei da deputada federal Geovania de Sá (Republicanos-SC) propõe excluir toda a porção terrestre da APA — cerca de 34 mil hectares, quase 20% da unidade. Na última semana, a Câmara dos Deputados aprovou regime de urgência para o projeto, o que permite que ele vá direto a votação em plenário, sem passar pelas comissões técnicas.


Geovania usou a expressão “desenvolvimento econômico sustentável” para justificar a aprovação de seu projeto, que corrigiria a insegurança jurídica de famílias que vivem em áreas urbanizadas do território desde antes da formalização da APA. 

Foto: Marina Fávero
Foto: Marina Fávero

Mas ambientalistas temem que a liberação provoque o crescimento da especulação imobiliária e a construção de hotéis e grandes edifícios na região. Além da baleia-franca, entre as espécies ameaçadas que são protegidas estão a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-verde e a toninha. 


 A Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação classificou a proposta como um retrocesso que “carece de fundamentação técnica e jurídica”, em nota que destaca terem sido quase 300 instituições envolvidas na delimitação original da APA. Pesquisadores e o próprio ICMBio alertam que a exclusão da faixa terrestre comprometeria restingas, dunas, manguezais, lagoas e remanescentes de Mata Atlântica — ecossistemas que sustentam tanto a baleia-franca quanto a experiência turística que tornou o estado referência internacional.


“Santa Catarina prova que conservação não é o oposto do desenvolvimento, e sim o seu motor. A APA da Baleia Franca é hoje a unidade de conservação mais visitada do Brasil porque escolheu proteger em vez de aproximar. É esse modelo, baseado nos princípios do turismo regenerativo, que deve orientar o futuro do turismo de natureza no país”, afirma Lejania Malheiros, presidente da Abeta - Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura.


Na visão da entidade, o momento reforça a importância de proteger um modelo construído ao longo de 25 anos, e hoje reconhecido internacionalmente como referência em conservação marinha.

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