A geração mais conectada do mundo está buscando silêncio na natureza
- Atré Comunicação
- há 5 horas
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Pesquisas e especialistas apontam o contato com a natureza como resposta ao excesso de telas e à solidão
Aos 16 anos, Isabella Olmos começou a perceber que os longos períodos no celular aceleravam sua rotina. Depois de rolar o feed, acompanhar as notificações e consumir estímulos em sequência, a sensação era de nervosismo. O alívio vinha quando ela fazia o caminho contrário: saía de perto das telas, caminhava na praia e passava algum tempo ao ar livre.
“Consumir muita coisa, muitos vídeos curtos e rápidos sempre me deixou muito ansiosa”, conta. “Aproveitar minha própria companhia em meio ao verde é algo que eu gosto muito de fazer.”
A experiência de Isabella não é isolada. Ela ajuda a explicar um movimento que começa a chamar a atenção de pesquisadores e especialistas: jovens hiperconectados estão recorrendo cada vez mais a espaços ao ar livre em busca de menos estímulos, de silêncio e de desaceleração mental.
A crise que chegou aos consultórios
Os números confirmam o que a intuição de Isabella já indicava. Três em cada dez brasileiros entre 18 e 28 anos já pediram afastamento do trabalho por questões de saúde mental, segundo pesquisa da Serasa Experian realizada em maio.
A ansiedade excessiva atinge 53% da Geração Z no Brasil, segundo a pesquisa da empresa de dados de consumo MindMiners. Globalmente, o Cigna Group aponta que 67% dos jovens dessa geração se declaram solitários - o maior índice entre todas as faixas etárias.
Para a Dra. Lilian Lucas, psiquiatra especializada em infância e adolescência, o que chega ao consultório hoje é qualitativamente diferente do que se via há dez anos, e mais grave.
“Hoje vemos ansiedade intensa, sensação de inadequação, dificuldade profunda de sustentar frustração e silêncio interno, e muitos comportamentos de risco”, afirma. “O adolescente não se compara mais apenas com colegas da escola ou do bairro, mas com milhares de pessoas o tempo todo, em plataformas desenhadas para capturar a atenção e estimular a validação social.”
Segundo a psiquiatra, o problema já ultrapassou os limites do que as famílias conseguem enfrentar sozinhas. “A regulação legal das plataformas digitais é fundamental. Os pais, sozinhos, estão perdendo esta guerra”, destaca.
Quando ficar sozinho ajuda
É nesse cenário que um estudo publicado em abril de 2026 na revista científica Health and Place chegou a uma conclusão inesperada: a solidão da Geração Z diminui quando o jovem fica sozinho — desde que seja na natureza.
A pesquisa, conduzida na Noruega com 2.544 participantes com mais de 18 anos, encontrou que passar tempo às margens de um lago, sem atividade em grupo, estava associado a uma menor sensação de desconexão social. O efeito não vinha da convivência com outras pessoas, mas do vínculo emocional construído com o lugar. Até mesmo caminhadas em meio à vegetação, segundo os pesquisadores, podem aliviar os sentimentos de isolamento em até 28%, especialmente entre moradores de grandes cidades.
A Geração Z, ao que tudo indica, já começou a chegar a essa conclusão por conta própria. No Reino Unido, o número de jovens de 16 a 29 anos que praticam observação de pássaros regularmente cresceu 1.088% desde 2018, segundo pesquisa da RSPB com mais de 24 mil participantes. O birdwatching se tornou o segundo hobby que mais cresce entre os jovens britânicos.
O que a ciência explica
A Dra. Lis Leão, pesquisadora sênior do Hospital Israelita Albert Einstein e coordenadora do grupo E-Natureza, que estuda a relação entre biodiversidade e saúde humana, oferece a explicação científica para o que esses jovens estão sentindo na prática.
“A natureza oferece algo que os aplicativos dificilmente conseguem reproduzir: uma experiência multissensorial, corporal e emocional de desaceleração, presença e restauração”, afirma. Segundo ela, o contato com florestas, parques e corpos d'água reduz o estresse e a fadiga mental, além de favorecer uma maior capacidade de autorregulação emocional.
“A natureza não atua apenas distraindo do sofrimento. Ela favorece experiências de encantamento, pertencimento e reconexão consigo, com os outros e com o mundo vivo, particularmente relevantes em uma geração que frequentemente relata esgotamento, solidão e crise de sentido.”
A percepção também se manifesta fora dos consultórios. Em Alagoas, a fundadora da MaçaiOK, Scheila de Almeida, que trabalha com turismo pedagógico e experiências de ecoturismo voltadas a crianças e adolescentes, afirma perceber mudanças claras de comportamento quando os jovens passam mais tempo em ambientes naturais.
“Registrar tudo não pode ser mais importante do que viver o momento e construir memórias verdadeiras por meio do contato e da presença”, afirma.
O mercado que chegou antes da medicina
Mariane Damasceno, 26, percebeu que vivia em “estado de alerta constante” enquanto trabalhava conectada às redes sociais. “Tarefas que antes eram simples passaram a exigir mais esforço”, conta. Desde então, passou a reduzir o tempo de tela e priorizar viagens ao campo e ao litoral.
“Nesses momentos consigo viver mais o presente, sem aquela sensação constante de precisar consumir mais informações ou entregar mais demandas.”
A mudança de comportamento já começa a se manifestar no turismo. As 175 unidades de conservação federais abertas à visitação registraram 28,5 milhões de visitas em 2025 - recorde histórico, segundo o ICMBio. O ecoturismo representa hoje cerca de 60% do faturamento do turismo nacional, segundo o Sebrae.
Para Lejania Malheiros, presidente da Abeta (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura), o setor percebe um interesse crescente por experiências ligadas à desconexão e ao contato direto com a natureza.
“As pessoas não buscam apenas paisagem, buscam desconexão real, presença e silêncio”, afirma. “Chegam com o celular cheio de notificações e saem querendo ficar mais um dia. O turismo de experiência virou uma forma de respirar o que a vida urbana não oferece mais.”
O paradoxo brasileiro
Em países como o Reino Unido e o Japão, médicos já receitam formalmente tempo ao ar livre como parte de tratamentos de saúde mental, nas chamadas prescrições verdes. No Brasil, a prática ainda é pontual. Uma das iniciativas pioneiras é coordenada pela Dra. Lis Leão em 14 Unidades Básicas de Saúde de São Paulo, por meio do Programa Ambientes Verdes e Saudáveis (PAVS), da Secretaria Municipal de Saúde.
“Temos uma das maiores biodiversidades do planeta, mas ainda incorporamos pouco esse patrimônio como estratégia estruturada de promoção de saúde”, afirma. “O que falta é reconhecimento institucional, formação de profissionais, políticas públicas intersetoriais e produção de evidências aplicadas ao contexto brasileiro.”
O Brasil é, ao mesmo tempo, o país com uma das maiores prevalências de ansiedade do mundo e o detentor da maior biodiversidade do planeta. O remédio e o paciente compartilham o mesmo território.











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