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Construção modular: o próximo salto da construção brasileira

Atré Comunicação
23 de set.
3 min de leitura

Por Andrigo Scodro - Engenheiro Civil na GND Incorporadora


Imagine um edifício residencial cujas principais estruturas são produzidas em uma fábrica, sob condições controladas, e que chegam ao terreno prontas para compor a construção. Instalações, paredes e diferentes etapas que tradicionalmente mobilizam o canteiro passam a integrar um processo industrial, com maior previsibilidade, controle e racionalização de recursos. Essa é a lógica da construção modular, uma tecnologia que avança no mundo e começa a ocupar um espaço relevante também no Brasil.


O mercado global de construção modular deve movimentar US$ 96,77 bilhões em 2026 e alcançar US$ 129,81 bilhões em 2031, com crescimento médio anual de 6,05%, segundo a Mordor Intelligence. O segmento residencial está entre os que mais avançam, com expansão projetada de 7,86% ao ano até 2031.


No Brasil, há sinais claros de que essa transformação já começou. Uma pesquisa da FGV IBRE mostrou que 64,5% das empresas da construção utilizam algum tipo de sistema industrializado. O principal motivo é a possibilidade de encurtar o prazo das obras, apontada por 81,5% das empresas. Também pesam a menor necessidade de mão de obra no canteiro (71,6%), o maior controle dos custos (66%) e a redução na geração de resíduos (63,9%). Para 59,3%, a industrialização também representa uma forma de reduzir os impactos ambientais. 


Os números revelam um setor que já incorporou parte dessa lógica. A industrialização brasileira ainda está bastante presente em componentes e etapas específicas da obra, enquanto a construção modular volumétrica, na qual módulos tridimensionais são produzidos industrialmente e compõem o edifício, ainda tem espaço para avançar.

As projeções reforçam esse potencial. O mercado brasileiro de construções pré-fabricadas deve passar de US$ 3,81 bilhões em 2026 para US$ 5,02 bilhões em 2031. Dentro desse universo, os edifícios modulares representam 43,2% da receita e constituem justamente o segmento com o maior crescimento projetado, de 6,91% ao ano até 2031. O residencial responde por 55,6% do mercado brasileiro de pré-fabricados.


Há desafios para que essa expansão alcance escala. A pesquisa da FGV identifica falta de mão de obra especializada, apontada por 50,5% das empresas, capacitação de projetistas, tributação e aceitação pelo mercado entre as principais dificuldades enfrentadas por quem já trabalha com sistemas industrializados.

Experiências brasileiras começam a mostrar como essa tecnologia pode chegar também ao mercado residencial de alto padrão. Em Florianópolis, o Passeio do Mar, da GND Incorporadora, levou a construção modular a um empreendimento de 30 apartamentos no Cacupé. Cerca de 300 módulos foram produzidos industrialmente pela Visia para a construção do residencial, que adotou uma obra seca e soluções voltadas à redução do consumo de recursos e da geração de resíduos.


A experiência também permitiu avaliar aspectos que interessam diretamente ao consumidor. Ensaios realizados no empreendimento comprovaram desempenho acústico superior aos parâmetros estabelecidos pela ABNT NBR 15575, enquanto a composição dos módulos contribui para a estabilidade térmica dos apartamentos. O projeto mostra que a industrialização pode alcançar alto padrão, preservando a arquitetura, o conforto e diferentes configurações de planta.

Esse talvez seja um dos pontos centrais para compreender o momento brasileiro. Temos uma indústria que já conhece e utiliza sistemas industrializados, empresas capazes de fabricar módulos em escala e projetos que demonstram a aplicação da tecnologia em diferentes segmentos. O mercado começa agora a acumular repertório e experiência para ampliar seu uso.


Em um setor pressionado pela necessidade de aumentar a produtividade, qualificar a mão de obra, reduzir desperdícios e responder a exigências ambientais crescentes, a construção modular encontra terreno promissor no Brasil. O próximo avanço dependerá da aproximação entre arquitetura, engenharia, indústria, incorporadores, financiamento e formação profissional.

A construção civil brasileira já iniciou esse processo. Ganhar escala pode transformar a industrialização em uma das principais ferramentas para construir melhor, com maior previsibilidade e menor impacto nas próximas décadas.


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