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Por que ainda deixamos o oceano à margem da agenda climática?

Atré Comunicação
4 de set.
2 min de leitura

Por Prof. Dr. Mauro Figueiredo, presidente do Instituto APRENDER Ecologia, e pesquisador do GPDA/UFSC (mauro@aprender.org.br) e Diego Alvarez, Diretor Executivo do Instituto APRENDER Ecologia e Coordenador de Impacto do Programa Brasileiro de Reservas de Surf (diego@aprender.org.br)


O debate climático avançou significativamente nas últimas décadas. Governos, empresas e sociedade passaram a discutir a transição energética, a redução de emissões, a conservação das florestas e a adaptação das cidades com uma intensidade até então inédita. Nesse processo, uma dimensão essencial do planeta ainda busca ocupar o espaço correspondente à sua importância: o oceano.


A discussão esteve presente na São Paulo Climate Week, que reuniu representantes do poder público, da academia, do setor financeiro, de organizações da sociedade civil e de comunidades costeiras. Os debates mostraram que inserir o oceano nas estratégias climáticas envolve uma agenda que começa na produção científica e se estende à economia, ao financiamento e às políticas públicas.


Um dos desafios está em transformar conhecimento em decisão. A integração entre oceano, clima e biodiversidade exige dados consistentes, coordenação institucional e instrumentos capazes de orientar políticas públicas e investimentos de longo prazo.


É nesse contexto que as Soluções Baseadas no Oceano ganham relevância. A conservação e a restauração de ecossistemas costeiros, como os manguezais, podem contribuir para a proteção da biodiversidade, a adaptação ao clima, o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida das comunidades.


As experiências do Programa Brasileiro de Reservas de Surf ajudam a compreender essa relação. O modelo parte da governança comunitária e da participação das populações locais na gestão dos territórios. Na Praia do Francês, em Alagoas, o reconhecimento como Reserva Nacional de Surf estimulou a mobilização da comunidade em torno da conservação da região.


Essa participação também possui uma dimensão econômica. O turismo de surf mostra como a geração de renda, a valorização territorial e a conservação ambiental podem caminhar juntas. A economia azul abre espaço para atividades vinculadas ao oceano orientadas por planejamento territorial, justiça climática e valorização do conhecimento local.

Para que essas iniciativas ganhem escala, o financiamento é decisivo. Entre as alternativas estão modelos híbridos, conhecidos como blended finance, que combinam recursos públicos, privados e filantrópicos. Métricas capazes de demonstrar resultados ambientais, econômicos e sociais também são fundamentais para atrair investimentos.


O Brasil reúne condições singulares para assumir protagonismo nessa agenda. A extensão da costa, a biodiversidade marinha, as comunidades tradicionais e o potencial econômico associado ao oceano representam uma oportunidade estratégica. Incorporar essa dimensão às políticas climáticas significa reconhecer que parte das respostas aos desafios das próximas décadas está diante de nós, ao longo de milhares de quilômetros de litoral.

Colocar o oceano no centro da ação climática é uma decisão ambiental, econômica e social. É também uma escolha sobre o modelo de desenvolvimento que queremos construir para um planeta cuja superfície é majoritariamente azul.

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