Por que uma casa preparada para envelhecer não precisa parecer adaptada para idosos
Por Renata Stringhini, cofundadora da DOM Senior Living
Cerca de 28% das pessoas idosas sofrem ao menos uma queda por ano, o que equivale a aproximadamente 9 milhões de ocorrências no Brasil, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde divulgadas pelo Ministério da Saúde. O dado chama a atenção para um aspecto ainda pouco considerado ao pensarmos sobre longevidade: o papel da casa na preservação da autonomia.
Durante muito tempo, preparar uma residência para o envelhecimento significou adaptá-la quando alguma limitação já estava presente. Surgiam barras de apoio, rampas, corrimãos e outras intervenções que frequentemente conferiam ao ambiente uma aparência institucional. A arquitetura voltada à longevidade propõe que essas necessidades sejam consideradas desde a concepção do projeto.
O desenho universal é uma das referências para essa mudança. O conceito orienta a criação de espaços que possam ser utilizados por pessoas de diferentes idades e condições físicas, incorporando segurança, acessibilidade e funcionalidade à própria arquitetura. Na prática, aparece em aspectos como circulação confortável, ausência de desníveis, iluminação adequada, pisos seguros, tomadas em alturas acessíveis e banheiros preparados para receber apoios quando necessário.
Muitas dessas soluções quase não são percebidas por quem utiliza o espaço. E esse é justamente um dos aspectos mais interessantes do design voltado à longevidade. Uma tomada posicionada alguns centímetros acima do padrão evita movimentos desnecessários de flexão. Um corredor mais largo facilita a circulação em diferentes condições de mobilidade. Um piso com tratamento antiderrapante reduz os riscos sem interferir na linguagem estética do ambiente.
A neuroarquitetura amplia esse olhar ao considerar como o ambiente pode influenciar o cérebro, as emoções e o comportamento. Estudos indicam que a presença de elementos naturais, como a madeira, pode favorecer sensações de conforto e respostas fisiológicas de relaxamento, contribuindo para a redução do estresse. A entrada de luz natural auxilia na regulação do ritmo circadiano, do sono e do humor. Já ambientes que convidam ao movimento, à permanência e ao encontro favorecem a atividade física e as conexões sociais — fatores associados à saúde mental, ao bem-estar e à prevenção de sintomas depressivos ao longo do envelhecimento.
Foi essa lógica que orientou o projeto do LOMA Pedra Branca, primeiro senior living em operação em Santa Catarina. Corredores mais largos, tomadas em altura acessível, pisos com sistema antiderrapante integrado e espaços planejados para diferentes níveis de mobilidade fazem parte do projeto arquitetônico e estão incorporados às áreas comuns e às unidades residenciais.
No LOMA, porém, esse cuidado vai além da arquitetura. Os espaços foram desenhados para favorecer encontros, movimento e convivência, pois uma residência preparada para a longevidade não deve apenas reduzir riscos, mas também estimular a vida. A arquitetura cria as condições, mas é a comunidade — formada por relações, experiências e vínculos cotidianos — que transforma o espaço em um lugar de pertencimento.
Projetar para a longevidade exige uma pergunta que deveria fazer parte de qualquer projeto residencial: como essa pessoa utilizará este espaço daqui a cinco, dez ou quinze anos? A resposta permite antecipar necessidades e criar ambientes capazes de acompanhar as transformações naturais da vida.
Essa reflexão ganha relevância diante da mudança demográfica no Brasil. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6% da população. As projeções do IBGE indicam que esse grupo deverá representar 37,8% dos brasileiros em 2070.
Os imóveis construídos hoje continuarão a ser utilizados por décadas. Pensar em longevidade desde o projeto significa criar espaços que acompanhem seus moradores ao longo desse período, preservando a segurança, o conforto e a independência.

Uma casa preparada para envelhecer pode ser contemporânea, bonita e acolhedora. As soluções mais eficientes muitas vezes estão justamente nos detalhes que quase não percebemos. Quando a arquitetura reconhece, desde o início, que as necessidades das pessoas mudam ao longo da vida, acessibilidade e segurança deixam de parecer adaptações e passam a fazer parte naturalmente do morar. Mais do que reduzir riscos, uma casa preparada para a longevidade deve preservar a autonomia, favorecer os encontros e abrir espaço para que a vida continue sendo vivida com alegria.



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